Negrados

Midia, cotidiano, arte, cultura e movimento

Morrer, verbo transitivo

Por Angela, Filomena e Adilson
Apresentação
Uma história de crime, sexo, adultério, sedução e sei lá mais o que.

Trata-se de um folhetim – que talvez vire romance, roteiro ou algo assim – e que surgiu de um desses comentários absurdos que se ouve nos campis universitários país afora. Ou, como disse a Angela:
“Um dia eu ainda me morro de rir das coisas que as pessoas falam, e das coisas que nascem de uma conversa de bar”

Bem, por enquanto surgiu esse folhetim. Vamos ver o que mais.

As Personagens (por enquanto) são:
• Elliot Harper, o adjetivador particular,
• Morfema, a bela,
• Sufixo, seu marido. (Sufixo??? Bem, acho que esse cara vai precisar de um nome melhor, mais teatral, pomposo e impactante, mas, vamos ver como as coisas se comportam em relacao a ele),
PS – O nome do Sufixo, já surgiu: Alan A. Moonsfield
• E o resto ainda não sabemos.
ET – Sabemos sim. Com o decorrer da história já surgiram:
• Jena Panigradi, vegana e mítica radical
• Robert Drumpert, “um dos grandes Medalhões desta cidade”, dono da SFIX TV, o popular canal 6 de televisão

Para conhecer a história, quem estiver interessado vai ter que acompanhar os três blogs e ser bom de tino, pra poder saber quando é a história, quando é comentário, suposição, bábláblá, ou coisa séria – que não tem nada a ver com a história.

Os Blogs são os seguinte (clique no nome para seguir até eles):
Filomena
Angela
E o meu, é claro.

É a história de um crime, envolve sexo, adultério, sedução e sei lá mais o que. Os personagens são Elliot Harper, o adjetivador particular, Morfema, a bela e Sufixo, seu marido. A Morfema vai se chamar Morfema mesmo, que é um palavra que combina com o personagem, mas o Sufixo… Bem, acho que ainda vai ter um nome mais teatral. O resto ainda não sabemos.

Para conhecer a história, quem estiver interessado vai ter que acompanhar os três blogs e ser bom de tino, pra poder saber quando é a história, quando é comentário, suposição, blablablá ou coisa séria, que não tem nada a ver com a história.

I – Angela

Elliot Harper. Adjetivador Particular. Eram essas as letras no vidro da porta. Profissão ingrata, essa de adjetivador; minha mãe nunca entendeu minha escolha, falava que quem gosta de sair por aí adjetivando outras pessoas nunca toma um rumo próprio na vida. Talvez ela estivesse certa. Mas ela morreu, e eu me esqueci de tomar jeito.

Era uma tarde fria de outono quando ela entrou em meu escritório. Usava trajes de morfema, cuidadosamente arrumada e perfumada. Lábios vermelhos tão cheios que causariam uma bela confusão semântica em qualquer rapazote que tentasse lhe dirigir a palavra. Para preservar o seu nome, chamemos essa cliente de Morfema. E que Morfema…!

“Preciso que você fique de olho no meu marido”, disseram aqueles lábios enquanto ela ainda se sentava à minha frente. “Mas você tem que ser muito discreto”

O meu cigarro preso no canto da boca. Será que ela fuma?, pensei.

“Traição?”

“Suspeito que o problema seja um pouco maior”, disse a Morfema, abaixando os olhos. “Meu marido é o Sufixo da cidade”

Puta merda. Já tinha ouvido falar de vários escândalos envolvendo o Alto Sufixado do condado. Esses religiosos sempre se safavam por falta de provas, e os casos sempre acabavam sendo abafados. Contatos. Eles certamente tinham contatos nos jornais.

“Acusaram o meu marido de ter abusado de sílabas menores”, disse com os lábios mais vermelhos e menos cheios.

Sílabas menores! Esse Sufixo de merda só pode ser um doente. Era um caso perigoso, sem dúvida, mas ela estava disposta a me pagar mais do que o suficiente para correr o risco.
Havia algo em seus olhos que a denunciava. Ela não parecia esperar que eu comprovasse a inocência de seu marido; provavelmente queria era um bom motivo para pedir o divórcio. Já tinha visto fotos do Sufixo no jornal – era um homem feio e calvo. Provavelmente ela se casou com o sujeito antes dele ser nomeado Sufixo, mas não o amava. Isso. Ela não o amava.

II – Filomena

Não o amaria de fato? Tornar-se sufixo leigo e ter que carregar um grande cruxifixo no pescoço era bastante peso para um jovem sonhador. O homem mudara muito depois de tomar essa decisão. Nem sempre fora assim feio e calvo. Fotos antigas apresentam um jovem esguio com fartas cabeleiras encaracoladas. Não. Ela ainda o amava, mas estava possuída por sede de vingança e frustração sexual. A mulher estava certamente perturbada. Eu podia notar pelas estranhas sentenças pronunciadas em voz trêmula. Afirmava, sem o menor contexto, que morrer se tratava de um verbo ativo. Morte agentiva? O que Morfema queria dizer com isso? O caso me intriga. Não, não se trata do dinheiro. É realmente peculiar.

O que teria feito o homem torna-se sufixo? Segundo Morfema, tratava-se de um homem ambicioso. Por que não, ao menos, circunfixo? Morfema informara que tudo começou quando ele, até então, professor de literatura e artes em famosa univesidade, interessou-se pelos escritos antigos de Panini, em especial, pelo Ashtadhyayi, escrito em oito livros.

Passei a pesquisar Panini. Há muita especulação sobre o local e a época em que ele viveu. Supõe-seele tenha vivido em Shalatula, nas margens do Indus, entre 520-460 a.C. Panini faz referência aos conceitos do dharma (o caminho da justiça), e de chandasi (hinos). Estaria a sua mudança de vida calcada nestes conceitos? Ou seria mais adequado pensar na mitologia de que Panini foi inspirado por um sonho em que ele ouviu o som do damaru do deus Shiva, que tocou cinco vezes de um lado e nove vezes do outro. Este conjunto de catorze sons, conhecido como o Shiva Sutra, tornou-se a base de sua obra. Seria, então, o Shiva Sutra a origem de tudo?

Mas Morfema era ainda mais intrigante, com aquele véu preto sobre o rosto, escondendo sua verdadeira identidade, uma personagem sombria que defendia que morrer é agentivo. Afirmando que toda a evidência se encontrava nas listas. Que listas seriam estas?

III – Adilson

Realmente, aquela história toda havia intrigado Elliot Harper: um membro, ou melhor: “o” membro do Alto Sufixado da cidade, que interessava-se por Panini e pelo Ashtadhyayi, acusado de “abuso de silabas menores”. Tava aí uma grande chance de retomar o rumo da sua carreira, que andava meio em baixa, primeiro por causa daquele incidente, há cinco anos atrás, quando a cidade toda e, quiçá o mundo, acompanharam a história do seu primeiro e único deslize, mas cuja repercussão atingiu em cheio sua carreira e, segundo – Ah, como era duro admitir! – porque o negócio de adjetivador particular estava ficando fora de moda, especialmente junto às camadas mais jovens da população, originalmente seu público alvo e seus mais fidedignos clientes que, fazia algum tempo percebera ele, estava trocando seus serviços pelas novas tecnologias, com seus chips “made in qualquer lugar aonde ele jamais iria”. De qualquer forma, estava ali uma boa oportunidade. Aos quarenta e oito anos, havia tido uma carreira bem sucedida como adjetivador. Desde que saíra da universidade a vida para ele havia sido uma espiral ascendente: da colação de grau ao primeiro emprego não precisara sequer de um mês e em menos de dois anos havia se tornado coordenador de uma equipe de oito adjetivadores. Havia superado inclusive o Johnny, que todos consideravam o melhor do ramo na cidade, até o advento daquele incidente, que o perturbava tanto que ele não consegui mais se concentrar efetivamente no trabalho. Até porque desde então, só lhe chegavam casinhos, pequenas intrigas semânticas que sequer mereciam uma nota de rodapé. Mas aquele caso não. Estava ali uma boa oportunidade e, vamos e venhamos, sendo contratado por aquele pedaço de mulher! – pensou ele – e corou, sentindo o coração bater mais forte no peito e certa comichão que há muito não sentia. Teria ela notado? Acho que não, ponderou ele, pois continuara a falar sem se ao menos apresentar qualquer evidencia.

De qualquer forma, aqui estava ele, pensando nas listas das quais falara Morfema. Que porra de listas seriam estas? Pelo que conhecia da literatura Sânscrita em especial do período védico– graças, quem diria, àquela maluca da Jena, vegana e mítica radical que custou a sair do seu pé – só poderiam estar relacionadas com o Vedanga e suas seis disciplinas. Certamente, estavam relacionadas ao Jyotisha e ao Kalpa, as disciplinas que regulavam a pratica de rituais, no caso da segunda, e no da primeira, que se ocupava da astrologia e da astronomia com o intuito de prever os dias mais favoráveis para a realização de sacrifícios.

Se como dissera Morfema, o marido se tornara Sufixo após o interesse pelo sânscrito e os védicos, e foi como sufixo que ele estava sendo acusado de abuso de silabas menores, então, era por ali que ele iria começar suas adjetivações. Ótima hipótese pensou Elliot Harper, e pegou o telefone…

IV – Angela

O telefone começou a tocar quando ele arrombou a porta dos fundos. Não fez questão de ser discreto, e subiu as escadas sem se preocupar com os rangidos de madeira velha. Eu já esperava por isso, já esperava por ele; desde que acabei ameaçando ir aos jornais e contar o que ele tinha feito com o meu aluno — e com os filhos de tantos outros! –, sabia que ele viria atrás de mim. Canalha.
Quando o telefone fez silêncio, ele já estava parado bem na minha frente. Um revólver apontado para mim e uma cara suada. Enxugou a testa com um lenço, e sem dizer nem mesmo uma palavra, disparou; caí no chão, o ombro ferido. Dor, dor, me arrastei em direção à janela como se isso adiantasse alguma coisa. Como é que chegou nesse ponto?, pensei.

Eu tinha é que ter me calado; o colégio de sílabas menores que fosse pro inferno, meu lado religioso não era lá grandes coisas mesmo. Mas não, vi aquele aluno chorando pelos cantos e resolvi me envolver. Foi isso: eu me envolvi, e agora estou aqui, sangrando e com dor.

Não, não, eu fiz bem. Aquele desgraçado merece morrer pelo que fez com o meu aluno, e pelo que fez comigo, tantos anos atrás. Como se eu pudesse me esquecer daquele rosto! Continua tendo aquele ar desdenhoso, só que com mais rugas. Já tinham se passado tantos anos assim? Por que diabos eu nunca fiz nada a respeito?

O telefone voltou a tocar, e eu fechei os olhos. Senti o filho da puta se aproximando sem pressa. Ele me empurrou com o pé, virando o meu corpo para que eu pudesse vê-lo. Para que eu pudesse ver o rosto que há tanto me perseguia, e que por tanto tempo desprezei. Não vivi para ler as manchetes do dia seguinte sobre um assassinato, num bairro tranqüilo e sem suspeitos. Um tiro no peito, e as minhas preocupações me deixaram. Nada mais importava. Enquanto eu morria, só queria saber quem me telefonava numa hora dessas.

V – Filomena

“E as fadas
As fadas também existem
São minhas namoradas
Me beijam pela manhã”

Tocava Cazuza e dava para ouvir na varanda. Na mesinha, um livro recém publicado, Rinoglotofilia, uma proposta de debucalização. Ele estava deitado ao lado do livro olhando o céu e falava consigo mesmo.

Sou peixe de águas salgadas. Nadei por prazer de liberdade até o mar alto. E a correnteza é forte demais. Não sei voltar e não sei aonde ir. A água me joga para onde quiser e eu tenho medo de me machucar. Melhor seria mesmo se me machucasse. Para encontrar finalmente o nada que procuro. Como seria? Afundaria até o frio infinito escuro, ou seria jogado de volta para a areia da praia? Queria ir para a areia da praia. No sol, em areia fervendo, com a carne ardendo queimada sendo comida por larvas comigo ainda vivo.

Você não basta para mim. É sempre a mesma frase me machucando.

Sinto-me um sepulcro fechado. As estrelas, as eternas estrelas. Tem uma tão fraquinha que que acho que jamais alguém viu.

Por que de novo está acontecendo isso comigo? Acho que gente pergunta isso só para as coisas que não gosta. Bom, provavelmente porque ainda não aprendi a lidar com essa situação. E a vida se repete sempre, “porque isso não vai parar, isso não vai parar, isso não vai parar, até você se tocar”.
Quero chuva de sapos. Que acontece, acontece. Choveu sapo em 1873 em Kansas City. Sangue em 1890 na Itália. Peixe em 1861 em Singapura. Que século de chuvas bizarras! Sapos significam o ‘letting go’. Let it go! Again, again, again… Frogs washing over me.

Eu continuo amando o céu com estrelas, quem sabe cai uma estrela cadente. Um cometa? Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói, dói. Quando fico feliz, o mundo me engole. Uma noite estrelada vale a dor do mundo, foi a Adélia Prado quem disse, acho.

Quem sabe sapos chovem. A lua está cheia.

Nada.

Fui fazer yoga hoje. A lua é um mistério. As estrelas.

“Mas existem também drogas pra dormir
E ver os perigos no meio do mar
No sono pesado, tudo meio drogado
Existem pessoas turvas, pessoas que gostam”

Arundhati. Os homens normais acham muito difícil, de fato quase impossível, ver esta estrela por ser tão fraca. Lembro de minha aula de línguas indígenas de quando ainda era aluno de Letras. Sabe que havia uma moça do Chaco que amava Plêiades? Um dia Plêiades veio ao mundo e o milho foi criado no Chaco. Um dia ele foi embora, de volta para o céu, e ela virou orquídea. Foi assim que a orquídea passou a existir na terra. Foi assim que a teologia apofástica fez sentido na minha vida. Nessa língua é possível conjugar na voz antipassiva. É uma voz contrária à passiva. Traz um sentimento de incompletude, de não afetar de fato o seu objeto. Inemata quer dizer te amo à distância e sem te ver. Inejigota é eu te como com os olhos.

Sinto que tem alguém me seguindo. Me acusam de ser composto por um pé degenerado. Degenerado? Falam que busco sílabas menores, sem ataque, com boas cordas bissilábicas. Mas sou mal compreendido. Quero a palavra apenas. A palavra divina. Ser sufixado a ela.

É língua materna pela população de Mattur no Karnataka. Tudo faz sentido agora. Fugir. Quem me persegue? Sou inocente. Mal compreendido. Azul e amarelo… Mattur…

Sai do jardim. Olha, então, para a capa de seu livro recém publicado. Embaixo do título, seu nome, Alan A. Moonsfield. Mais à esquerda, um revólver.

Gotas de suor pingando. Gotejando lento. A cabeça confusa recebia ao mesmo tempo sua dose de café e nicotina, de cocaína. Acende um baseado para dormir.

“Senhores deuses, me protejam
De tanta mágoa
Tô pronto para ir ao teu encontro
Mas não quero, não vou, não quero
Não quero, não vou, não quero”

VI – Adilson

O telefone tocou insistentemente sem resposta. Elliot Harper ligou uma, duas vezes e nada. Deve estar meditando – ou então fazendo a postura da “árvore invertida com torção dorsal a esquerda” – pensou ele sem conter um leve sorriso, enquanto lembrava de um encontro em que ele só queria sexo e Jena tentava lhe explicar os benefícios da Transyoga na ampliação da capacidade de armazenamento de Complexo B pelo Fígado e sobre a importância da meditação ante um prato de salada, para o melhor aproveitamento da energia lunar e feminina de Artemis que os vegetais, devido a sua exposição constante à lua, armazenam em si. É Jena Panigradi, esse era o nome dela , tu era mesmo doidinha! Pensou ele, soltando um malicioso sorriso.

De qualquer forma, como Jena não atendesse ao telefonema, Elliot Harper desistiu e foi buscar informações sobre o Sufixo na Internet. Foi só no dia seguinte, no Janjão Lanches, entre uma mordida na versão genérica do Big Mac Duplo e a leitura do material sobre o Sufixo que conseguira na Internet, que ele viu boquiaberto imagens de Jena no noticiário do meio-dia, estampando a notícia de que ela havia sido assassinada com um tiro no peito em sua bela e arborizada casa. Ouviu atentamente ao sensacionalismo todo feito pela mídia e ao breve histórico da vida de Jena, sua passagem pela Índia, sua vida entre tribos indígenas do Chaco, sua experiência com as comunidades veganas de Londres e San Francisco, etc. Coisas que em quase seis meses de convivência com Jena ele nunca soubera!
- Puxa, o SFIX TV, o popular canal 6, tá ficando muito bom. Que eficiência! – pensou ele. Conseguiram juntar todas essas informações sobre Jena em tão pouco tempo! Afinal não fazia sequer 15 horas que o assassinato fora descoberto, comunicado por um vizinho que segundo dizia a reportagem ouvira os tiros. E Elliot Harper lembrou-se de quando ainda rapazote assistia aos primeiros programas da TV, recentemente adquirida por Robert Drumpert, “um dos grandes Medalhões desta cidade” como dizia seu falecido pai em seu falar machadiano. Lembrou-se como eram sofríveis os programas e as transmissões de então, cheias de interrupções, ruídos, informações desencontradas que obrigavam os âncoras da TV a fazerem constantes comunicados de que deram notícias erradas e, mais ainda o desrespeito crônico ao horários em que iam ao ar a programação anunciada. Nada que se compare com esse show de cobertura e qualidade jornalística que ele assistia chocado posto que, afinal, tratava de alguém que lhe havia sido por assim dizer, íntimo, e que jazia agora com um balaço no peito. E, o que era pior, sem nenhum suspeito.

O adjetivador ficou bastante abalado com a notícia. Tanto que largou seu lanche pela metade e saiu a caminhar sem rumo. Tinha sido por isso que ela não atendera ao telefonema. E culpou-se por não ter simplesmente chamado um taxi e ido até a casa dela. Mas logo demoveu-se dessa idéia. Afinal, o que poderia ele ter feito? Ademais, como ele explicaria a Jena aparecer assim, no meio da noite em sua casa, depois de tantos anos? E, afinal, porque ele ligara mesmo prá ela? Os pensamentos brotavam aos borbotões em sua cabeça. Surgiam imagens de Jena, que logo se suplantavam por manchas de sangue. Lembrava dela fazendo Transyoga ao som de Ligeti e a musica do compositor húngaro era suplantada por sons de tiros. E foi assim entre lembranças e devaneios enquanto caminhava pela região da Praça da República que passou em frente ao teatro municipal e pelo Anhangabaú que chegou ao seu escritório na Rua Bois de Bologne – gostava de ter um escritório naquela rua cujo nome lhe trazia doces lembranças de Paris.

Entrou com ar abatido e deixou-se cair sobre a poltrona e ficou ali, pensando, tentando entender como as coisas estavam agitadas desde que Morgana entrara naquela mesma sala a alguns dias atrás. Veio-lhe a imagem de Morfema e seu lábios – mamma mia, que lábios! E sem querer começou a devanear e seu devaneio mesclava Morfema, Jena, o Adjetivador e seu laptop e foi aí, exatamente ai que seu olhar recaiu-se sobre os papeia impressos na noite anterior na qual lhe chamou a atenção uma folha, das muitas que colocara na mesinha ao lado da poltrona, com informações sobre o Sufixo que ele havia encontrado em suas pesquisas na internet. Era uma página impressa da Wikipédia, trazia uma foto do Sufixo ladeada pelo nome Alan A. Moonsfield: Sufixo da cidade de Bergens, seu primeiro posto servindo ao país e do qual fora sucessivamente promovido até chegar a ser “o” Sufixo da Capital. Santo Google, pensou ele! E pôs-se a ler ler.

Leu que ele falava cinco línguas, inclusive uma indígena – quem aprenderia língua indígena no mundo de hoje, perguntou-o adjetivador – que praticava yoga, que tinha passagem na polícia por porte de drogas. Maconha e cocaína ! Filho da puta, como, mesmo assim, o senhor Moonsfield chegara a Sufixo da Capital?

A tarde ia ao fim quando Elliot Harper adormeceu, deixando cair sobre o peito o maço de folhas que uma lufada de vento espalhou pela sala

VII – Angela

Adormeceu e sonhou que estava de novo em Paris. O sonho parecia um filme noir, com ele andando por uma rua deserta à noite usando sobretudo e chapéu. Vapor saindo de um bueiro. Entrou num bordel escondido numa ruela, cumprimentou o barman e acendeu um charuto. Pediu um martini, mas veio uma Caracu com gelo.

“Excusez-moi, Monsieur…“, disse ao barman.

“Sorry Mr. Harper, but this is only a dream! I’m afraid we’ve ran out of martini. Enjoy your Caracu on the rocks, chap.“

Perplexo, Elliot olhou novamente para a sua Caracu aguada e viu, na borda do copo, uma pequena mulher se equilibrando. Era Jena, minúscula e ainda mais bela do que ele se lembrava. Estava vestida de fada, e fazia poses engraçadas para ele. Elliot olhou ao seu redor para verificar se era mesmo o seu único espectador ou se mais alguém partilhava dessa loucura. Quando olhou de volta para o copo, Jena dançava frevo com um guarda-chuva, sem nunca perder o equilíbrio.

O Sufixo se sentou ao seu lado no balcão. Estava vestido de cowboy e cuspia como se estivesse no Velho Oeste. Ao percebê-lo, Jena mergulhou no copo de Caracu. Elliot ergueu o copo para procurar a mini-Jena, mas não conseguia ver nada além de algumas pedrinhas de gelo. Maldita cerveja escura!, pensou. Pousou o copo no balcão e depois encarou o Sufixo, que o cumprimentou colocando a mão no chapéu.

De repente, tiros e gritaria. Elliot se jogou atrás do balcão enquanto os estilhaços das garrafas nas prateleiras caíam sobre ele. Correria, a música acabou. O pianista morreu? Silêncio. Elliot levantou a cabeça por cima do balcão e viu Morfema vestida de gângster, com risca-de-giz e um sorriso descarado. Caminhou felinamente até ele e encostou o cano da arma em sua testa. Elliot não se mexeu. Apenas virou os olhos para a sua esquerda e viu o corpo do Sufixo. Voltou a olhar nos olhos de Morfema.

“Onde estão as listas?”, perguntou Elliot.

Morfema respondeu com uma gargalhada e um disparo.

Era alguém batendo na porta de seu escritório, e Elliot acordou.

VIII – Filomena

A porta! Preciso atender. Caralho! Peguei no sono!

Sem secretária, dada a crise que estava passando, deveria abrir a porta ele mesmo. Em uma tentativa desesperada de não demonstrar que estava ensonado, arrumou os cabelos rapidamente e abriu a porta ainda entre o sonho e a realidade.

Alan Moonsfield?!

Devo estar ainda sonhando, esse caso não me sai da cabeça! Porra!

O senhor me conhece?!

Pensou rápido, embora ainda não estando certo se esta visita era realidade ou ainda parte do sonho.
Não. Mas seu rosto é bastante conhecido, senhor Sufixo de Bergens.

Sim, exatamente. Sou Alan Moonsfield, Sufixo. Preciso falar com o senhor, sr. Harper. O senhor pode me receber agora?

Entre, por favor. Aceita um martini?

Não bebo martini, obrigado. O senhor teria vinho tinto?

Com a taça na mão, Moonsfield foi direto ao assunto, para a perplexidade de Elliot Harper.
Ouvi falar de seus serviços de adjetivação e eu preciso ser propriamente adjetivado.
Fale mais sobre isso.

Como o senhor deve saber, sou estudioso de culturas antigas e, assim, não me arrisco nos métodos modernos. O senhor fez um excelente trabalho de adjetivação na década de noventa. Gosto de seus métodos, considerados por alguns, atualmente, desatualizados, verdade… Mas não acredito nos métodos tecnológicos sempre manipulando seu consenso de maneira tão rápida e enjoativa. Gosto de métodos alternativos, com base nas tradições mais clássicas. Mas você tem que ser muito discreto se se interessar pelo caso.

“Você tem que ser muito discreto”. Era a mesma frase da Morfema! Aquela maldita que não me sai da cabeça.

Como posso ajudá-lo?

O senhor já sabe que sou Sufixo de Bergens. Um cargo de responsabilidade. Além disso, acabo de publicar aquele que considero a grande obra de minha vida, um livro sobre a gramática do sânscrito com base em meus estudos nas listas lexicais védicas, mais especificamente Dhatupatha e Ganapatha.
Lista? Santo caralho! Seriam estas as listas? Pensou Elliot.

Como o senhor deve saber, como Sufixo, trabalho com religião, língua e literatura, nos modelos da cultura védica, obviamente reinterpretando os estudos sobre a língua com base na lingüística moderna. Com pais imigrantes indianos, meu interesse pelo assunto veio da infância e dediquei, a esse tema, toda a minha vida. Um obra de fôlego, sem dúvida. Mas recentemente meu nome está sendo envolvido em grandes escândalos.

Não sei de nada. O senhor sufixo poderia ser um pouco mais claro?

Desconfio de vingança de minha esposa, agora separados não oficialmente. Devo confessar que soube, através da SFIX TV, que Jena Panigradi foi assassinada. Eu conheci Jena durante minha pós-graduação, dela também. Tivemos um romance. E assim começaram as crises em meu casamento. Minha esposa nunca me perdoou e ela tem me acusado de muitas coisas, espalhando distorções sobre minha vida. Temo que eu seja acusado de ter cometido este assassinato, seria uma grande vingança, e eu perderia meu cargo de Sufixo, coisa que ela muito deseja. E minha obra perderia sua credibilidade. Às vezes penso em me matar pensando nesta possibilidade. Preciso fazer alguma coisa para evitar, e assim pensei no senhor. Sei que o senhor passou por uma fase bastante difícil também, é assunto público; desculpa tocar no assunto. Uma grande crise… Assim, pensei que o senhor poderia me entender e me ajudar a evitar uma crise que seria fatal para mim. Não posso imaginar que toda a minha obra se perca em escândalos.

É sobre a sua esposa a questão? Quem é sua esposa, sr. Moonsfield? Perguntou Harper escondendo um ar de ironia.

Prefiro não revelar sua identidade. Depois de nossa separação, ela tem se dedicado a uma vida, digamos, oculta. Esta é uma parte, de fato, delicada, de minha vida. Não é para tratar dela que venho aqui. Trata de me adjetivar propriamente. Como profissional.

A curiosidade de Harper ficou ainda maior. Quem é esta Morfema? E agora? Estou sendo procurado pelos dois para tarefas opostas? Como devo adjetivar propriamente este homem? Deveria aceitar um serviço duplo?

IX – Adilson

Senhores e Senhoras! – Um homem todo paramentado e usando máscara falou, com sua voz grave, chamando a atenção dos presentes que se espalhavam pela rica sala, decorada com extremo bom-gosto, apesar do aspecto árido e sisudo – O teto compactuado para a espera está terminado. Peço-lhes que procedam com as normais finais de segurança para que possamos passar para o salão da Jyotisha e discutir o que faremos.

Os presentes – umas 15 pessoas, todas paramentadas e igualmente usando máscara – formaram uma fila por ordem ascendente de altura e uma por uma repetiram uma combinação de gestos que começavam pelo braço direito e ia lentamente se transferindo para o corpo todo, numa combinação simétrica e exata de gestos que configuravam uma bela coreografia. Uns dois minutos durou essa dança de códigos só compreensíveis aos presentes que justamente por isso, ao terminavam sua seqüência de movimentos de modo a se prostarem voltados de frente para o próximo da fila, o primeiro um pé à direita de sua posição original, o segundo à esquerda, o terceiro `’a direita e assim sucessivamente, de modo que todos os presentes pudessem ver a movimentação do sucessor e conferir se estava correta. Ao final todos levantaram a mão esquerda simultaneamente num gesto que ainda que desconhecido, indicava claramente que o ritual havia sido cumprido por todos corretamente.

A seguir o primeiro fez algumas perguntas aparentemente ininteligíveis, uma espécie de língua franca, talvez criada exclusivamente por eles, ao qual o outro respondia e se dirigia defronte para uma estande com obras ricamente encadernadas em couro, formando novamente uma fila. Ao final, o último a chegar à fila foi até a estante e moveu uma combinação de 7 livros exatamente iguais deixando cada um em uma posição era ligeiramente diferente da dos demais e ao mover o ultimo a estante se abriu revelando uma escada que descia para o salão da Jyotisha.

Era um salão ricamente decorado com símbolos da astrologia hindu levemente alteradas, o que denunciava de certa forma os propósitos daquela confraria. Todos tomaram lugar numa grande mesa oval e a mesma voz que já ouvimos antes falou novamente:

Senhores! Senhoras! As medidas de segurança foram cumpridas com perfeição – retomou o Grão-Magnífico, nossa já conhecida voz, retirando sua mascara e paramento sendo seguido por gesto simultâneo de todos, que se revelaram e se entreolharam, cumprimentando um ao outro.

- Pois bem. – Falou com voz grave o Grão-magnífico – O tempo urge e por isso vou ser direto. Nossa confraria encontra-se ameaçada. E é por isso que convoquei essa assembléia extraordinária. Como é do conhecimento de todos, um de nossos membros caiu e está a ponto de expor nossa organização. A decisão tomada em nossa ultima reunião foi, infelizmente, praticada com uma ineficácia absurda de modo que podemos dizer que uma morte foi cometida sem que o efeito alcançado fosse o esperado e devemos agir rápido, para reparar o erro de modo eficaz e é pra isso que estamos aqui. Temos que sair daqui hoje com uma ação bem definida e cujo efeito seja total, ou então podemos por em risco.tudo aquilo que construímos para nossa satisfação integral.

- Exatamente, manifestou-se uma senhora loira, bonita, com um indescritível ar de crueldade silábica no olhar. A ação perpetrada foi de uma ineficácia ultrajante. Matar com um tiro é absolutamente contra os preceitos desta confraria, ainda mais neste caso, que atraiu a atenção de um vizinho que chamou a polícia. Ainda bem que agimos a tempo, manipulando autoridades e a informação, deturpando o caso mas a questão agora é urgente. Temos que agir e cortar friamente na raiz.

- sobre isso eu queria dizer que devíamos repensar nosso critério de execução de decisões. Essa ação foi tão mal praticada que deveríamos ter mecanismos de controle, de poder punir quem realizou o ato.
- Discordo disso outra voz, é o anonimato nas ações que tem garantido a forca e a união dessa confraria há muito tempo. Essa não é a primeira ação cometida com falha e não será por causa dela que mudaremos nossos estatutos.

Sim – disse outro. Os debates são feitos nesta assembléia olho-no-olho, a decisão é tomada e todos sabem qual é, mas a escolha de quem a executará dever continuar como sempre foi: anônima.
Sim! Sim! Falaram todos e percebendo o ânimo da assembléia, o Grão-magnífico falou, encerrando o tema – E não se discute mais isso.

- O envolvimento do alto sufixado da cidade trás o problema para muito perto de nossa confraria, de maneira que teremos que agir aí também. Falou um senhor magro de face ferina, quebrando o breve silencio que se seguiu à fala do Grão-Magnífico, recolocando a conversa nos trilhos…

- Perfeitamente. Disse outra integrante, que tinha cabelos ao estilo brunette e vestia-se com lascívia. Ainda que o envolvimento do sufixo leve todos a pensar, num primeiro momento, nas listas lexicais e na discussão das raízes verbais e nominais o fato é que mesmo assim estaremos em risco e pois o debate e conseqüente investigações dos suspeitos pela morte o que levará ao caso das silabas menores , podendo entoa, muito bem, chegar às Listas e aí estaremos todos correndo grande risco e perigo.

E o debate prosseguiu com todos os membros se manifestando, até que chegou no tema Jena e sua morte repleta de erros, quando o grão-magnifíco deixou escapar – É isso, precisamos de uma morte agentiva! – Todos se entreolharam e fixaram nele o olhar. Morte Agentiva. Genial!! É o que as faces revelavam as faces, deixando entrever o pensamento de todos e a satisfação de ter um líder como o Grão-magnífico.

- Senhores e senhoras. É disso que se trata. Não podemos correr o risco de cairmos. Por isso a questão da morte é imperativa. Mas não pode ser qualquer morte. Nada de tiros – enfatizou ele – Estamos falando em mortes agentivas. Mais que uma portanto. E proponho que nos encontremos no próximo período sem lua para realizarmos os rituais Jyotishicos que nos ajudarão a definir como deverá ser feito este novo sacrifício pela nossa Ordem, de modo a preservar nossa rede e nossos aliciadores. Se todos estiverem de acordo, que se levantem e a reunião está encerrada. As instruções vocês receberam pelas vias habituais as mesmas pelas quais vocês poderão se manifestar. E não se esqueçam: nada de tecnologia!!!.

Todos se levantaram. Exceto um velho com aparência libidinosa que falou – Quero lembrar a todos que essa decisão está sendo feita sem a presença de três de nossos mais importantes membros. Seria importante que eles pudessem estar aqui e se manifestar. Ao que o Grão-magnífico redargüiu – Meu caro ancião-silábico-honorário, creio que sobre isso nossos estatutos são claros. Quem falta acata a decisão do todos – A seguir olhou fria e incisivamente nos olhos do ancião-silábico-honorário e perguntando: – E então, a definição será por unanimidade?

O velhote pensou um pouco, e resolutamente levantou-se.

O Grão- magnífico então encerrou a reunião. Todos colocaram seus paramentos e máscaras, realizaram a série gestual ritualística de despedida e foram saindo um por um por uma porta que se abriu do lado oposto daquela pelo qual haviam entrado.

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Cap. X – Angela
Ele estava sentado na sua confortável poltrona quando a loira entrou e anunciou:

- Robert, querido. Vou pro quarto.

Robert não se moveu. O exterior do copo de whiskey que ele segurava já tinha várias gotículas e molhava o braço da poltrona, mas aquilo não parecia incomodar seu estado de aparente desligamento. A loira perguntou:

- Você não vem…?

- Já tô indo, murmurou Robert.

Tomou um gole e pensou que precisava dar um pé na bunda dessa garota. Ela era muito parecida com Jena e isso estava começando a deixá-lo irritado. Deu um suspiro; se soubesse que aquele idiota teria sido tão descuidado na execução da sua tarefa, Robert teria feito tudo sozinho. É isso. Se você quer algo bem-feito, faça você mesmo, pensou.

Agora era arcar com as consequências. Antes mesmo, ele protestou contra a decisão da confraria, pois sabia que essa história de fazer parecer um suicídio nunca dá certo. Mas agora que tudo tinha dado errado e a tarefa tinha sido realizada escancaradamente como um assassinato, a casa ia cair. Porra, não era pra fazer parecer que a Jena tinha sido morrida…!

Foi pro quarto cambaleando. Quatro doses de whiskey, pensou. Ou teriam sido seis? Tanto faz, tanto faz, quero a minha cama. E foi, mas ao se aproximar do quarto, viu a loira deitada na cama e pensou ter visto uma poça de sangue. Pensou ter visto Jena. Isso é real? Náusea, tontura. Caiu e bateu a cabeça numa cômoda.

***
Interrompemos a transmissão de Os Beijos Que Sonhei Pra Minha Boca para anunciar que Robert Drumpert foi internado essa madrugada no Hospital de Santa Cruz. Mais notícias após a novela. SFIX TV, o seu canal da informação!

Cap.XI – Filomena

Alan Moonsfield, sentado em sua confortável poltrona de couro preto, toma seu costumeiro vinho tinto olhando um pouco distraído para a TV. Fica perplexo ao ouvir sobre a internação de Robert.

Preocupa-se. Havia faltado da reunião da confraria. Será que essa notícia teria relação com algo que aconteceu na reunião? Teria sido de fato acidente? Ou as mortes deveriam continuar? Mas, se sim, por que está ainda vivo? Sim, deve ter sido um acidente… Melhor pensar em outra coisa.

Admira a lua através da imensa porta de vidro que dá para a varanda. Olha a novela Os beijos que sonhei para a minha boca no vale a pena ver de novo da SFIX. Vê Tânia Paloma tentando suicídio de cima do penhasco. Alan inveja a coragem de Paloma pronta para se jogar no mar. As ondas batem verdes e fortes no final do penhasco. O cenário é magnífico. Paloma diz: “Partir, deixar a ilha tão pequena, que as ondas do mar rodeiam. Fugir, buscar terras mais longe onde a alma errante caminhe. Partir.” Paloma se prepara para saltar. E o capítulo termina aí.

Um frio na espinha se instala. Morte agentiva. Se pelo menos pudesse escolher a minha morte. Se eu não for propriamente adjetivado, não terei mais alternativas. Não quero de sangue imolado para Shiva.
Olha novamente a lua crescente e pensa em Pashupati, uma das primeiras representações de Shiva. O Senhor dos Animais com sua três faces, olhando o passar do tempo. Há quatro animais ao seu redor, o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Esses animais podem representar nossas emoções e instintos mais básicos como o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade desenfreada. Pashupati, então, é aquele que domou suas feras interiores, suas emoções e convive sabiamente com elas. Apenas aqueles que praticam os ritos dos irmãos dos animais podem ultrapassar sua animalidade.

Sua ex-esposa desrespeitou Shiva e já não pode mais controlar seus instintos. Poderia, sim, ela ser imolada, mas a confraria não deverá encontrá-la, afinal mudou de nome, de identidade. Ela é a personificação dos instintos. Sexualidade desenfreada, principalmente…

Sentiu saudades dela. Resolveu sair para vê-la dançar como Shiva.

A porta, próxima à Praça da República, já anunciava o show, com uma grande e luminosa chamada para a Rainha Lesbo. Alan entrou todo em preto, sobretudo, chapéu o óculos. Não podia ser reconhecido naquele local.

Lá estava ela, em posição de árvore invertida dançante, ao lado do costumeiro mastro. Aprendeu com Jena. Linda como sempre, com seus lábios grossos e seios fartos. Ao seu lado, quatro mulheres animalescas. Uma verdadeira visão de Pashupati ao som de Slave to Love. Olhando, como quem admira a lua, ficou por muitos minutos, apenas repetindo a lírica da música de maneira automática.
Alan permaneceu bem ao fundo, ela não o poderia ver. Estava no canto direito. Olhou em volta e no canto oposto viu o adjetivador. Ele também está aqui? Seria coincidência? Ou sabe quem é minha esposa? Aceitará ele minha proposta? Ou também coloborará para a minha total desmoralização? Ficou atordoado e resolveu sair antes de ser reconhecido.

Passou a andar pela Rua São João e a letra de Slave to Love não saia de sua cabeça:

The sky is burning
A sea of flame
Though your world is changing
I will be the same
The storm is breaking

Passou a cantarolar procurando pela lua crescente, e uma vontade imensa de morte agentiva encheu-lhe a alma. Sílabas menores…

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