Negrados

Midia, cotidiano, arte, cultura e movimento

A Lógica da Cultura Iluminada: a versão disléxica da Fazenda

Às vezes acho que Campinas sofre de dislexia catatônica no tocante ao reconhecimento dos sinais referentes às suas necessidades culturais. Digo isso porque a cidade, ou melhor, seus administradores – para não ficar falando em cidade, essa afigura abstrata apesar de sua concretude – apresentam uma alternância entre períodos de passividade e de negativismo e períodos de súbita excitação, sem nunca compreender o que significam os sinais que estão aí para serem lidos de forma clara e objetiva.

Nos últimos anos a cidade tem vivido um de seus períodos de excitação graças a uma secretaria de cultura que, há que se reconhecer, tem realizado atividades importantes para a auto-estima dos habitantes da cidade e eventos como o Carnaval, as festividades de Natalícias e os eventos semanais e diferentes praças da cidade, entre outras tantas atividades. E isso é muito bom porque a cidade andava de fato em baixa no que se refere a atividades que devolvessem ao cidadão seu direito inalienável de desfrutar a praça, a qual, como dizia Castro Alves, “é do povo como o céu é do condor”, coisa tão importante em nosso país a ponto de até o nosso exército homenageá-la (afinal “sentar praça” significa alistar-se nas forcas armadas ou na polícia e o termo vem da idéia de que aquele que o fazia o fazia para defender a praça, o espaço público).

No entanto, justificando o título de Fazendeiros Iluminados, nossos administradores acham por bem iluminar somente a via principal, de acesso à Casa Grande, um ou outro cômodo da mesma e outros tantos na Senzala. Explico: fazem dos eventos na praça, com entrada franca ou em troca de uns tantos gêneros alimentícios (naturalmente para beneficiar alguma entidade) o carro-chefe de sua gestão. Mais uma vez, uma bela atitude, pois é preciso beneficiar primeiro os que mais precisam, no caso, aqueles carentes de opções de lazer e cultura, atividade para a qual muitos não podem pagar. E é neste ponto que abandono as metáforas para tecer uma crítica à concepção Iluminada de Cultura de nossos administradores.

É justamente na idéia do não pagamento que mora o problema da dislexia atual. Afinal prá quê criar no público a cultura de pagar para consumir cultura? Ao invés de falar em Política Cultural, nossos administradores falam em Gestão Cultural, esquecendo-se que aquela diz respeito a ações que se configuram ao longo do tempo e, sem essa perspectiva, focam no imediato do momento presente – ou no máximo no período até a próxima eleição, pois é por isso que se faz política – o que explica a prioridade que recebe a realização de eventos que sabidamente, possibilitam os pontos positivos já reconhecido aqui, os quais são realizados por uma secretaria de gestores iluminados. Dentro dessa perspectiva, a administração trabalha captando milhões de reais anuais para a realização de eventos gratuitos com base na crença de que é isso que deve fazer o gestor da coisa pública: tirar dinheiro da iniciativa privado, quica até com um certo agiozinho para realizar eventos para os desfrute gratuito da patuléia e dos nem tanto assim.

Tudo muito apropriado exceto pelo fato que ao agir assim, os gestores da cultura iluminada não se dão conta que com isso estão arvorando para si, ou melhor, para a administração a função de produtores e realizadores culturais, às vezes inflacionando o mercado e noutras estagnando-o, sem perceber que com isso concorrem com aqueles e sem se dar conta de que ao agirem assim estão na contramão das necessidades da cidade que é possibilitar que artistas e produtores culturais desenvolvam aqui um mercado consumidor de suas obras para que com isso eles possam se fixar na cidade e não ir embora, como a lógica da Fazenda Iluminada a muitos anos teima em fazer com seus criadores, os quais não encontram aqui forma de sobreviver dignamente a partir do fruto do seu trabalho e de sua criatividade, sem ficar de pires na mão mendigando as migalhas oferecidas pelos gestores iluminados com suas contratações para shows e eventos semanais pagos só deus sabe quando, lei de incentivo cultural atrelada aos interesses da gestão, etc. Naturalmente há exceções, temos aqui artistas e produtores que criaram um nicho, desenvolveram um mercado para sua arte com compradores e fornecedores, mas que são tão poucos que essa raridade só justifica a regra: na Fazenda Iluminada, o artista, para viver, precisa ir embora. Voltarei ao tema.

11, June, 2008 Posted by negrados | Campinas, Fazenda Iluminada, cultura | , , | No Comments Yet

EMDEC e a lógica iluminada

Tem alguma coisa errada quando o cidadão leva 15 minutos para chegar a pé ao seu destino e uma hora de ônibus.

Ainda se fosse como medida restritiva, para forcar uma menor utilizacão de um meio de transporte sabidamente poluente, ou para estimular o usuário a fazer um pouco de movimento, até porque 15 minutos de caminhada não é nada (ET – se não estiver um dia chuvoso ou um sol de fritar ovo, ou se o usuário não quer chegar suando a um compromisso entre outros que tais…)

Vinha pensando nisso enquanto me dirigia ‘à casa, sentado no ônibus após mais de 35 minutos de espera, e após ter feito mais uma das muitas reclamações que já fiz sobre o sistema de transporte da Fazenda Iluminada. Não me conformava com a idéia de que na sexta-feira pós feriado de Corpus Christi, considerada para todos os efeitos dia útil, isto é de trabalho – exceto, nunca entendi muito bem porquê, nas repartições públicas – me fosse informado que algumas linhas de ônibus e, naturalmente, justo minha, operavam em caráter especial. Caráter especial? Pasmei eu, pensando em que diria qualquer patrão se um trabalhador lhe chegasse e dissesse que hoje trabalharia em regime especial:trabalharia 30 minutos, daria um tempo e depois mais 30… Mas deixemos de ironias que não é disso que se trata. E vamos logo ao ponto

Trata-se do absurdo de o poder publico de Campinas mudar o horário de ônibus de algumas linhas da cidade e não informar a população. Trata-se de nao haver horário nos pontos de ônibus e trata-se de quem fiscaliza não fiscalizar.

Mas, descendo a minúcias porque delas é que é feita a vida, trata-se de o cidadão perguntar ao fiscal da EMDEC do porque do caráter especial ele dizer que é por causa do feriado. Ué, mas não foi ontem? E , cúmulo dos cúmulos, de o mesmo informar que o horário que o ônibus passaria no tal regime especial era às 13:30 horas e, pasmem, o carro chega 7 minutos antes do horário estabelecido, não espera o horário, parte e o cidadão se poe a reclamar com o já referido fiscal sobre mais esse ocorrido e ser orientado – e essa é de arrancar os cabelos – que vá reclamar a quem de direito.

Ué?!!! pergunta o matuto, mas não é exatamente o que o cidadão fazia junto ao nobre fiscal enquanto perdia seu ônibus que passava 7 minutos antes do horário que o próprio preboste acabara de informar?

Lógica da Fazenda Iluminada e, o que é pior, nao é culpa do preboste mas de toda a estrutura de acha normal que o cidadao espere 15 minutos por um ônibus (ET. pobre coitado que precise pegar 4 ou mais conducoes por dia). Lógica Iluminada.

PS – EMDEC, para quem nao sabe é a empresa encarregada pelo Gerenciamento do Sistema de Trânsito e Transporte de Campinas, a Fazenda Iluminada a que me refiro.

23, May, 2008 Posted by negrados | Fazenda Iluminada, Notícias Brasil | , , | No Comments Yet