Negrados

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A armadilha da cultura local

Sign in a local restaurant. A bit of the local culture and attitude. Foto All Souls

No contexto da globalização, qual voce considera o maior produto de exportação do Ocidente? Para muito além das drogas e da armas, é claro? Trata-se de uma questao difícil de responder, mas dá para sustentar que sao os valores culturais. Trata-se da afirmacão naturalmente muito polemica num mundo no qual a maioria da pessoas nao se importam com o fato de que esteja ela em São Paulo, Beijing, New York, Viena ou Mumbai, ela estará usando o mesmo jeans no mesmo tipo de shopping, bebendo a mesma cerveja e cafe, assistindo aos mesmos filmes de Hollywood e ouvindo as mesmas musica. A maioria das pessoas felizmente não se importam com isso mas muita gente se importa.

Os críticos da globalização, por exemplo, sao praticamente unânimes em se referir às forcas do mercado globalizado que na sua esteira inundam o mundo com a Cultura ocidental e sustentam que isso significa o fim da cultura local.

E é sobre isso que gostaria de convidar o eventual leitor a refletir com essa pequena nota. Sempre achei estranha essa idéia até porque as pessoas que defendem a tal cultura local sempre me pareceram estar se batendo por alguma causa própria, tipo protegendo um certo campo para sua atuação, como se a cultura local de um determinado grupo fosse a coisa mais importante a ser preservada neste mundo que está mudando e que na verdade sempre mudou. Afinal, o que é isso de cultura local.

Sempre me fiz essa pergunta e gostei muito das reflexoes que faz o escritor, professor do Departamento de Política Internacional e Estudos Políticos da Universidade de Surrey a apresentador da BBC, Kenan Malik em artigo publicado na edicao de julho/agosto da revista New Humanist.

O argumento de Malik é que o maior produto de exportação Cultural do Ocidente não são os jeans ou as músicas e os blockbusters mas, justamente a “idéia de cultura local”. Segundo ele, trata-se de nocao que se originou em fins do século 18 e hoje compreende o mundo todo. “Cada ilha do Pacífico, cada tribo na Amazônia tem sua própria cultura que quer defender da depredacao do imperialismo cultural ocidental” e o mais interessante, muitas vezes estimulados por membros dessa mesma cultura ocidental que encontram nisso verbas e financiamentos, além de espaço privilegiado em simpósios, congressos e seminários mundo afora.

O argumento central de Malik é que a idéia mesma do conceito de cultura local é uma falácia que tem sido apropriada tanto por liberais quanto por conservadores – de acordo com ele, hoje em dia multiculturalistas e afins e teóricos raciais tem credos diferentes mas a mesma visão de mundo “ambos fetichizam a diferenca, ambos buscam confinar indivíduos aos seus grupos de origem – com base na ideia de que “todo ser humano é tao formado por uma cultura particular que mudar ou solapar essa cultura seria solapar a dignidade mesma do indivíduo”. Segundo ele isso só faria sentido se judeus e bengalis, Navajos e Ianomamis “fossem biologicamente distintos – em outras palavras se identidade cultural fosse uma questão de raça” o que todos sabemos que não é. No entanto, segundo ele é exatamente isso o que no limite se encontra atrás do argumento da identidade cultural e recomendo a leitura do artigo porque ele apresenta uma argumentação muito boa, a qual creio que todos deveríamos pensar hoje em dia se queremos realmente combater qualquer tipo de racismo.

16, August, 2008 - Posted by negrados | Amazonia, Notícias Mundo, cultura | , , , | 1 Comment

1 Comment »

  1. Cultura é sempre misturável. É purismo achar que se pode deixar algo intácto. Quem quer viver como os avós há 100 anos atrás? Ninguém, creio. E fico imaginando até a grande maldade nossa querendo deixar índios em reservas com as culturas preservadas!

    Comment by Filomena | 20, August, 2008 | Reply


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