Negrados

Midia, cotidiano, arte, cultura e movimento

Liquidando a Amazônia?

Como os eventuais leitores desse blog sabem, se é que os há, fiz da questão Amazônica um dos meus principais temas. Mais especificamente, me interessa a questão das reservas indígenas, a privatização estrangeira e nacional, o nacionalismo xenofóbico nacional e seu discurso de segurança nacional e os prós e contras da participação estrangeira no tema, seja in loco ou em teoria. No meu modo de ver pouca atenção tem sido dada ao debate fora dos meios especializados e por isso nesta semana voltarei com toda carga ao assunto, publicando artigos diversos, com pontos de vista variados de modo a oferecer aos meus possíveis leitores material para reflexão sobre o assunto.

Um dos temas que surgiram nesta semana – por ocasião da conferencia da ONU que ocorre em Bonn na Alemanha – diz respeito ao sueco Johan Eliasch, famoso por ter comprado cerca de 162 mil hectares de terra na Amazônia (mais do que a área de New York) por aproximadamente 10 milhões de euros, onde plantou 200 mil árvores e impediu o desmatamento; e por ter declarado que “teoricamente é possível comprar a Amazônia por 50 bilhões de dólares”.

Para situar o leitor em outubro de 2006, David Miliband que depois veio a se tornar a ministro de Relações Exteriores no governo de Toni Blair, revelou a existência de um plano para promover uma ‘privatização completa da Amazônia’ para prevenir a emissão de gases estufa – aquecimento global – pelo desmate existente na região. O ‘deslize’ de Miliband foi feito ao insuspeito jornal britânico Daily Telegraph para o qual ele esclareceu que a proposta envolvia a aquisição de grandes áreas da Floresta Amazônica por cidadãos e grupos privados, de modo a formar uma vasta área “protegida”, cuja administração seria confiada a uma comissão internacional.

Por outro lado em julho de 2005 durante a cúpula do G-8 realizada em Gleneagles, Escócia surgiu o ‘Diálogo de Gleneagles sobre Mudança de Clima’ para operacionalizar a ‘governança’ das florestas tropicais, dentre outras tarefas. Em 2007, na cúpula do G8+5, realizada em junho na Alemanha, surgiu a proposta de ‘desmatamento evitado’ (Avoiding Deforestation), que logo evoluiu para ‘desmatamento zero’ para a Amazônia. Ao passo que o Banco Mundial anunciava a sua ‘solução de mercado’ para o desmatamento em florestas tropicais: o Forest Carbon Partnership (FCP), um novo fundo que seria criado por volta de 2010, com investimentos previstos de 200 milhões de dólares em projetos pilotos de conservação na Amazônia e outras florestas tropicais que gerarão ‘créditos’ de carbono a serem vendidos para os países industrializados. Uma espécie de precursor do novo fundo do Banco Mundial foi lançado em Berlim, durante uma reunião de parlamentares do G8+5, com o pomposo nome de “Fundo Conjunto para Carbono de Florestas” que tem o Brasil como principal alvo e onde o Banco pretende financiar de imediato um projeto de grande vulto.

Com base neste tópicos, voltemos a Johan Eliasch. Ele fundou a “Cool Earth“ organização que vende áreas na Amazônia brasileira e equatoriana, pela internet, para proteger a floresta a 70 libras por acre (cerca de 0,4 hectare) e cujo site na data de hoje anuncia que aproximadamente 37,106 acres estão protegidos pela organização. Como se pode ver, tem muita gente participando desse empreendimento acreditando que assim estão ajudando a preservar “o Pulmão do Mundo”. Trata-se de um caminho para a proteção da Amazônia e não se pode descartá-la de princípio pois é interessante e ainda que romântica – imagino um militante ecológico confortavelmente instalado na sua casa na Dinamarca, por exemplo, com seu título de propriedade estampado na parede, orgulhoso de estar fazendo a sua parte para salvar o Planeta – pode ser uma opção. Mas pode ser apenas uma maneira de conquistar corações e mentes românticas pois atrás do romantismo presente por trás da “Cool Earth” pode estar uma grande “fria”, desculpem o trocadilho primário, sobretudo quando se junta essa informação com o problema das reservas indígenas, especialmente no tocante à maneira como o governo brasileiro tem conduzido a questão e quando se sabe que 3,1 milhões dos 5,5 milhões de hectares da Amazônia brasileira estão, de acordo com a Folha de São Paulo, nas mãos de estrangeiros: 55 por cento!

A questão que se coloca é: existe aí alguma orquestração? Até onde preservar a Amazônia, criar reservas indígenas e comprar um pequeno pedaço de terra esta relacionado? Voltarei ao tema.

1, June, 2008 - Posted by negrados | Amazonia, Notícias Brasil, Notícias Mundo | | 1 Comment

1 Comment »

  1. [...] Cool Earth de quem falei recentemente (confira o post “liquidando a Amazonia?” clicando aqui. Semana passada ele foi multado pelo IBAMA por desmatamento ilegal. Publico aqui seu artigo no qual [...]

    Pingback by A Amazônia brasileira para os brasileiros « Negrados | 11, June, 2008 | Reply


Leave a comment