Negrados

Midia, cotidiano, arte, cultura e movimento

Morrer, verbo transitivo (Cap. VI)

O telefone tocou insistentemente sem resposta. Elliot Harper ligou uma, duas vezes e nada. Deve estar meditando – ou então fazendo a postura da “árvore invertida com torção dorsal a esquerda” – pensou ele sem conter um leve sorriso, enquanto lembrava de um encontro em que ele só queria sexo e Jena tentava lhe explicar os benefícios da Transyoga na ampliação da capacidade de armazenamento de Complexo B pelo Fígado e sobre a importância da meditação ante um prato de salada, para o melhor aproveitamento da energia lunar e feminina de Artemis que os vegetais, devido a sua exposição constante à lua, armazenam em si. É Jena Panigradi, esse era o nome dela , tu era mesmo doidinha! Pensou ele, soltando um malicioso sorriso.

De qualquer forma, como Jena não atendesse ao telefonema, Elliot Harper desistiu e foi buscar informações sobre o Sufixo na Internet. Foi só no dia seguinte, no Janjão Lanches, entre uma mordida na versão genérica do Big Mac Duplo e a leitura do material sobre o Sufixo que conseguira na Internet, que ele viu boquiaberto imagens de Jena no noticiário do meio-dia, estampando a notícia de que ela havia sido assassinada com um tiro no peito em sua bela e arborizada casa. Ouviu atentamente ao sensacionalismo todo feito pela mídia e ao breve histórico da vida de Jena, sua passagem pela Índia, sua vida entre tribos indígenas do Chaco, sua experiência com as comunidades veganas de Londres e San Francisco, etc. Coisas que em quase seis meses de convivência com Jena ele nunca soubera!

- Puxa, o SFIX TV, o popular canal 6, tá ficando muito bom. Que eficiência! – pensou ele. Conseguiram juntar todas essas informações sobre Jena em tão pouco tempo! Afinal não fazia sequer 15 horas que o assassinato fora descoberto, comunicado por um vizinho que segundo dizia a reportagem ouvira os tiros. E Elliot Harper lembrou-se de quando ainda rapazote assistia aos primeiros programas da TV, recentemente adquirida por Robert Drumpert, “um dos grandes Medalhões desta cidade” como dizia seu falecido pai em seu falar machadiano. Lembrou-se como eram sofríveis os programas e as transmissões de então, cheias de interrupções, ruídos, informações desencontradas que obrigavam os âncoras da TV a fazerem constantes comunicados de que deram notícias erradas e, mais ainda o desrespeito crônico ao horários em que iam ao ar a programação anunciada. Nada que se compare com esse show de cobertura e qualidade jornalística que ele assistia chocado posto que, afinal, tratava de alguém que lhe havia sido por assim dizer, íntimo, e que jazia agora com um balaço no peito. E, o que era pior, sem nenhum suspeito.

O adjetivador ficou bastante abalado com a notícia. Tanto que largou seu lanche pela metade e saiu a caminhar sem rumo. Tinha sido por isso que ela não atendera ao telefonema. E culpou-se por não ter simplesmente chamado um taxi e ido até a casa dela. Mas logo demoveu-se dessa idéia. Afinal, o que poderia ele ter feito? Ademais, como ele explicaria a Jena aparecer assim, no meio da noite em sua casa, depois de tantos anos? E, afinal, porque ele ligara mesmo prá ela? Os pensamentos brotavam aos borbotões em sua cabeça. Surgiam imagens de Jena, que logo se suplantavam por manchas de sangue. Lembrava dela fazendo Transyoga ao som de Ligeti e a musica do compositor húngaro era suplantada por sons de tiros. E foi assim entre lembranças e devaneios enquanto caminhava pela região da Praça da República que passou em frente ao teatro municipal e pelo Anhangabaú que chegou ao seu escritório na Rua Bois de Bologne – gostava de ter um escritório naquela rua cujo nome lhe trazia doces lembranças de Paris.

Entrou com ar abatido e deixou-se cair sobre a poltrona e ficou ali, pensando, tentando entender como as coisas estavam agitadas desde que Morgana entrara naquela mesma sala a alguns dias atrás. Veio-lhe a imagem de Morfema e seu lábios – mamma mia, que lábios! E sem querer começou a devanear e seu devaneio mesclava Morfema, Jena, o Adjetivador e seu laptop e foi aí, exatamente ai que seu olhar recaiu-se sobre os papeia impressos na noite anterior na qual lhe chamou a atenção uma folha, das muitas que colocara na mesinha ao lado da poltrona, com informações sobre o Sufixo que ele havia encontrado em suas pesquisas na internet. Era uma página impressa da Wikipédia, trazia uma foto do Sufixo ladeada pelo nome Alan A. Moonsfield: Sufixo da cidade de Bergens, seu primeiro posto servindo ao país e do qual fora sucessivamente promovido até chegar a ser “o” Sufixo da Capital. Santo Google, pensou ele! E pôs-se a ler ler.

Leu que ele falava cinco línguas, inclusive uma indígena – quem aprenderia língua indígena no mundo de hoje, perguntou-o adjetivador – que praticava yoga, que tinha passagem na polícia por porte de drogas. Maconha e cocaína ! Filho da puta, como, mesmo assim, o senhor Moonsfield chegara a Sufixo da Capital?

A tarde ia ao fim quando Elliot Harper adormeceu, deixando cair sobre o peito o maco de folhas que uma lufada de vento espalhou pela sala

22, May, 2008 - Posted by negrados | Literatura, cultura, folhetim | , | 1 Comment

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  1. Morrer VII e VIII no ar!

    Comment by filomena | 27, May, 2008 | Reply


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